A Favela Vista de Dentro
Muito bom o artigo: A Favela Vista de Dentro (no O Globo Online), de Reginaldo Lima, nosso maninho morador do Alemão. Vale a pena ler.
Fonte: http://oglobo.globo.com/blogs/arquivos_upload/2010/12/421_3012-regi...
Reginaldo Lima, morador do Alemão
Desde os primeiros registros do ser humano sobre a face da terra, sempre existiram aqueles que mandam, os que controlam, os que ajudam e quem não se enquadra em nenhuma das opções anteriores. Surgem assim, nessa última situação, os nossos primeiros pobres, ou melhor, os miseráveis. Em nosso querido Brasil não seria diferente, e nem fugiria a essa regra. A humanidade alicerçou seus pilares num sistema cruel. Os mais poéticos e respeitáveis historiadores registram a invasão de nossos descobridores. Seguiu-se depois da “invasão” a libertação dos escravos, grande marco da justiça social. Sem nenhum planejamento, eles passaram a ser livres, mas não sabiam lidar com essa liberdade. Então, eles perceberam que, para sobreviver, era importante ficar em grupo, situação semelhante à vivida nas cruéis e duras senzalas.
São esses nossos patriarcas que, livres, passam a ser perseguidos como bandidos ou se sujeitando a trabalhar qua- se que de graça, em condições que pouco se diferenciam da vida de um escravo. Surgem as grandes cidades e, já passados alguns anos, os nossos ex-escravos se juntam a outras centenas de milhares vindos das regiões Norte e Nordeste do nosso país, fugidos da seca, do coronelismo político, do desemprego e do profundo abandono governamental. Há quem defina este momento como um processo de construção.
Depois desta transformação da sociedade, o que chama a atenção é justamente a existência de grupos que destoavam do projeto de cidade europeia. Isso é ruim, não? Surgem, então, as primeiras favelas, mas precisamente aqui no Rio, a nossa bucólica Providência. Certamente, o termo vem da necessidade de providenciar algo: a moradia. Os anos passam e na Providência como em outras favelas surge um novo personagem que atormentaria não apenas a comunidade local, mas toda a sociedade: o TRAFICANTE. Ele teria como justificativa ter optado por esta vida em decorrência do desajuste social. Ele ganha, em pouco tempo, notoriedade pela imprensa, por seus feitos do "mal". O assunto é estampado nas primeiras páginas dos jornais e discutido por todos os intelectuais de A a Z, ultrapassando as barreiras do país.
O moleque inconsequente virou o monstro criado pela sociedade. Muitas vezes, ele também é resultado de vários anos de abandono e da falta de políticas públicas. Em meus 40 anos de vida e em minha relação com a favela, sei que a maioria dos moradores luta e deseja ter uma vida mais justa.
Reginaldo Lima, nascido e criado no Complexo do Alemão, é o responsável pela área de relações governamentais do AfroReggae.
Veja o vídeo com a entrevista de Reginaldo Lima em: http://oglobo.globo.com/rio/video/2010/21400/default.asp


